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06/10/2015

As mulheres da minha geração

As mulheres da minha geração

Santiago Gamboa

Tradução livre de Luiz Augusto Michelazzo

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É o único tema em que sou radical e intolerante, no qual não
escuto argumentações:
As mulheres da minha geração são as melhores e ponto.

Hoje têm quarenta e picos, inclusive cinqüenta, e são belas, muito belas, porém também serenas, compreensivas, sensatas e sobretudo diabolicamente sedutoras, isto, apesar dos seus incipientes pés-de-galinha ou
desta afetuosa celulite que capitaneam suas coxas, mas que as fazem tão
humanas, tão reais.
Formosamente reais.
Quase todas, hoje, estão casadas ou divorciadas, ou divorciados e
recasadas, com a intenção de não se equivocar no segundo intento, que às vezes
é um modo de acercar-se do terceiro e do quarta intento.
Que importa?
Outras, ainda que poucas mantém um pertinaz celibatarismo e o
protegem como a uma fortaleza sitiada que, de qualquer modo, de vez em quando
abre suas portas a algum visitante.
Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!
Nascidas sob a era de Aquário, com a influência da música dos
Beatles, de Bob Dylan, de Lou Reed, do melhor cinema de Kulbrick e do início
do boom latino-americano, são seres excepcionais.
Herdeiras da revolução sexual da década de 60 e das correntes
feministas, que entretanto receberam passadas por vários filtros,elas souberam combinar liberdade com coqueteria, emancipação com paixão, reivindicação com sedução.
Jamais viram no homem um inimigo, apesar de que lhe cantaram umas quantas verdades, pois compreenderam que se emancipar era algo mais que colocar o homem para esfregar o banheiro ou trocar o rolo de papel higiênico,
quando este tragicamente se acaba, e decidiram pactuar para viver em dupla,
essa forma de convivência que tanto se critica, porém, que com o tempo,
resulta ser a única possível, ou a melhor, ao menos neste mundo e nesta vida.
São maravilhosas e têm estilo, mesmo quando nos fazem sofrer,
quando nos enganam ou nos deixam.
Usaram saias indianas aos 18 anos, enfeitaram-se com colares
andinos, cobriram-se com suéteres de lã e perderam sua parecença com Maria, a Virgem, em uma noite louca de sexta-feira ou de sábado, depois de dançar Elraton, de Cheo Feliciano, na Teja Corrida ou em Quebracanto, com algum amigo que lhes falou de Kafka, de Gurdjieff e do cinema de Bergman.
No fundo de suas mochilas havia pacotes de Pielroja, livros de
Simone de Beauvoir e fitas de Victor Jara, e ao deixar-nos, quando não havia
mais remédio senão deixar-nos, dedicavam-nos aquela canção de Héctor Lavoe, que é ao mesmo tempo um clássico do jornalismo e do despeito,e que se chama Teu amor.
Falaram com paixão de política e quiseram mudar o mundo, beberam
rum cubano e aprenderam de cor canções de Silvio Rodriguez e Pablo Milanez, conheceram os sítios arqueológicos, foram com seus namorados às praias, liberdade e, sobretudo, juraram amar-nos por toda a vida, algo que sem dúvida fizeram e que hoje continuam fazendo na sua formosa e sedutora madurez.
Souberam ser, apesar da sua beleza, rainhas bem educadas, pouco
caprichosas ou egoístas.
Deusas com sangue humano.
O tipo de mulher que, quando lhe abrem a porta do carro para que
suba, se inclina sobre o assento e, por sua vez, abre a do seu acompanhante
por dentro.
A que recebe um amigo que sofre às quatro da manhã, ainda que seja
seu ex-noivo, porque são maravilhosas e têm estilo, ainda quando nos façam
sofrer, quando nos enganam ou nos deixam, pois seu sangue não é tão gelado o suficiente para não nos escutar nessa salvadora e última noite, na qual estão dispostas a servir-nos o oitavo uísque e a colocar, pela sexta vez, aquela
melodia do Santana.
Por isso, para os que nascemos entre as décadas de 40 e 60, o dia
da mulher é, na verdade, todos os dias do ano, cada um dos dias com suas
noites e seus amanheceres, que são mais belos, como diz o bolero, quando está você.

Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!